24 de fev de 2011

CONVERSA DE TÁXI III

Temporal. Torrencial. Sem guarda-chuva, mais uma vez, encharcada. Desesperada por um táxi. Nada. Todos lotados. Passou um, passaram 10 e de repente no meio do aguaceiro ela conseguiu enxergar que o que vinha estava VAZIO!! Prêmio dos prêmios... mais uma vez se atirou na frente do carro, acenando como louca pra ele parar. Nova freada brusca, nova entrada desesperada, sem fôlego, encharcada. Se jogou no banco de trás e, quando olhou para o retrovisor o motorista estava às gargalhadas...
-nossa, moça, parece que a senhora marca encontro comigo toda vez que chove e a senhora tá encharcada, desesperada!! Mais uma vez, quase te atropelei...
-moço, é o senhor!! não acredito...
-vou desligar o ar, pra não se resfriar. Vamos pro mesmo lugar da outra vez??
-é, Tijuca...
-sabe, to com novas músicas...vou colocar pra senhora ouvir, já sei que gosta...
- gosto sim. São bem bonitas. Seu cumpadre continua gravando pro senhor??
-então não? Sabe, ele tá aposentado, então se distrai fazendo essas gravações pra mim. Legal, né?
-muito. Todo mundo sai ganhando- seu cunhado que arranja ocupação, o senhor que fica com um som legal no carro e seus passageiros também que podem ter momentos de boa música...
-a senhora acredita que tem gente que não gosta? Outro dia peguei um sujeito todo arrumado, de terno e pensei “esse vai gostar” e perguntei se podia ligar o som
-e aí?
-ele disse vai em frente – e coloquei Rod Stewart- sabe aquele cd de música antiga?
-sei, adoro!
-acredita que ele falou “isso? Isso lá é música? Pensei que você ouvisse funk...desliga isso, vai...”
-funk, dona?? Eu tenho cara de quem ouve funk? Olha meus cabelo grisalhos, eu lá vou ouvir aquelas coisas ( aquilo não é música) chamando mulher de cachorra, umas letras agressivas... não é que o cara, todo enternado, gostava!!!
-sei lá onde a gente vai parar, moça...a senhora é professora, né?
-sou. como o senhor sabe?
- moça, da outra vez a senhora falou, mas acho que tava tão atordoada com a chuva que não deve lembrar...mas eu lembro...
- é, sou mesmo...
-a senhora deve padecer com as turmas, né?
-padecer como assim?
- moça, essa garotada agora não tem mais respeito por nada nem por ninguém. Se acham os donos da verdade, são agressivos- falta de educação mesmo, moça...
Em rio que  tem piranha, jacaré nada de costas...
-...não são tantos assim...tem muita gente interessada...
-interessada em ter o “diproma” – assim que essas antas falam – nem o nome  diploma falam direito... se a senhora ouvisse as conversas que ouço dentro desse carro... juntam 2 ou 3 e saem da prova se gabando como colaram, rindo dos professores, como uns maiorais... uma vez não agüentei, era tanto deboche que disse pra eles “é vocês colam, se acham espertos, acham que enganaram o professor, mas o professor já tem uma profissão, uma carreira e vocês, vão ser o quê? Coladores profissionais?”... na hora ficaram caladinhos...desaforo, falta de respeito...
-moço, é no próximo quarteirão...
-me lembro moça, pode deixar......pronto, aí tá a senhora, são e salva e menos molhada...
-obrigada ao senhor
-obrigada a senhora e no próximo temporal a gente se encontra...
Nunca mais o vi...

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