22 de fev de 2011

O TELEFONE


 
Resolvi comprar telefone novo – desses com internet...afinal tenho que me tornar moderna, pois se até blog criei...
Entrei na loja – tem que pegar senha pra ser atendida – olhei meu  número e o daquela caixinha luminosa que acende e toca e vi que faltava muito pra ser atendida – aliás, como sempre...nunca peguei uma senha  que meu número fosse o próximo; sempre faltam, no mínimo. 15 pessoas pra serem atendidas antes de mim...
Fui perambular pela loja, olhando modelos de aparelhos, atenta aos preços – meu dinheiro não é capim de beira de estrada – cada aparelho mais poderoso que o outro...
Fiquei fascinada! fazem de um tudo – só faltam ensaboar nossas costas! ( aí ia ser um delírio...) Mas além dos preços salgados, eram tantas as funções com uma sucessão de siglas – pra mim incompreensíveis, estava mais pra sopa de letrinhas – nunca ia conseguir usar tudo.
Esse mundo virtual é novo pra mim, ainda me espanto e de nada adianta ter um foguete supersônico na mão se só sei conduzir carroça de jegue...
De repente meu olhar bateu num aparelho, estava lá, branco,  preço ótimo, sopa de letrinha menos variada... E aquele celular piscou pra mim! Ficamos lá, flertando, nos conhecendo... Ah, pra quem não sabe o que é flerte, aí vai explicação: na minha  juventude os namoros começavam com um flerte, olhar um para outro, de longe, até uma sutil aproximação física... Explico porque, naquela época, não se saía de casa, como hoje, já com “garfo e faca” na mão...
Então flertamos e chegou minha vez. Atendente gentil, mostrou aparelho, branquinho  (secretamente antigo sonho de consumo) e ligou telefone...tudo ótimo!
“ E como acesso a internet? “ – sim, porque essa era razão pra querer telefone novo, senão ficava com meu modelo antigo, quase uma BMV ((Brasília meio velha ), mas que fala e recebe... Sou do tempo em que era só isso que telefone fazia...
À pergunta sobre internet, a vendedora arregalou os olhos e me disse que ‘não sabia’... Eu ri, porque com certeza eu sabia menos que ela e todas as minhas esperanças em sair com celular novo, com pleno acesso à internet, repousavam nos ombros da gentil vendedora...
“Então, meu anjinho, estamos com um problema! Porque veja bem, eu mal consigo lidar com meu notebook, companheiro velho de guerra, pra mais de 3 anos... agora imagina essa coisa nova, cheia de ícones que, pra mim, são grego...”
“Mas aqui nós não somos treinadas pra isso...”
Boa vontade a menina tinha – foi, voltou, apertou mil teclas, combinações variadas – nessas alturas eu já palpitava, me sentindo meio pós-doutora, diante do desconhecimento dela... Afinal, se deu por vencida – e eu também – e me deu um número de telefone pra eu ligar de casa.
“Liga do seu telefone fixo, porque aí a senhora fica com o celular livre – eles vão dar o passo a passo e a senhora acessa a internet...”  Saí de lá confiante, pronta pra dançar um bolero telefônico e, enfim, ter meu novo bichinho de estimação cibernético...
Liguei para o tal número do “passo a passo”... atendimento eletrônico (nada me enlouquece mais! ), mil opções são dadas pra teclar – quando acaba de elencar o rol de opções, já me perdi e não lembro mais qual tecla devia apertar...mas há uma esperança...’digite zero para voltar ao menu inicial’... e lá vou  eu, de novo, para o menu... Se esse menu fosse de comida, eu devia pesar mais de 100 quilos, tantas vezes que acessei...
Quando consegui, afinal, ir apertando as teclas corretas, pensei ‘agora vem o passo a passo’... e recebo a seguinte frase: ‘sua ligação é muito importante para nós, agradecemos por chamar a.... ( operadora )’e...FIM DA LIGAÇÃO!
Ou seja, o passo a passo, virou um passo escorregadio, um trompaço, um tapete puxado e eu estarrecida olhando para o telefone fixo e para o celular inoperante...
Voltei à loja dois dias depois – nesse meio tempo, tentei de tudo com o celular, só faltei mandar benzer ou exorcizar, e nada... Na loja, depois da espera da senha ( é de lei ), sentei e contei meu drama para atendente  (outra, simpática, também ).
“Senhora, aqui nós não fazemos isso...”
“Está certo, meu anjo, mas,  por favor, me diz quem faz? onde? porque o passo a passo não funciona...”
“A senhora está vendo aquele telefone ali – apontou para um pedestal atrás de um vidro que, nessa hora, estava sendo usado por uma senhora – então, ali é o pronto  atendimento...a senhora tira o fone do gancho, eles atendem na central e vão lhe dar todas as informações...”
Esperanças renovadas, olhei para a senhora no telefone – cara dela de desalento derrubou minhas esperanças - chegamos a começar a conversar e ela me disse que estava ali há uma eternidade...
Passados uns 20 minutos, consegui pegar o telefone do pronto atendimento – SEIS tentativas, porque caíam as ligações em determinadas etapas – até retirar bateria e chip e recolocar eu fiz, com a ajuda da vendedora, agora a bonitinha que me vendeu o aparelho, visivelmente feliz em me rever...
Na 6ª vez que caiu o ‘pronto atendimento’, eu disse que queria falar com a gerente, supervisora, qualquer que fosse o nome da função da responsável...Veio uma mocinha, muito gentil ( todas são ) e me disse que ‘o telefone do pronto atendimento tinha sido quebrado por um cliente’... Isso me colocou com cabelos em pé! Cliente satisfeito não quebra telefone...e ela completou ‘aqui nós não fazemos configuração de aparelho...’
“E quem faz?”
“ A senhora tem que ir numa loja da operadora X...”
“Meu anjinho, eu ESTOU numa loja da X, isto é uma loja...”
“Não, senhora, isso é uma franquia...”
“??? franquia ou não, pra mim É uma loja – tem placa luminosa enorme na porta, vocês vendem aparelhos e linhas telefônicas...É UMA LOJA, SIM...”
“Não, senhora, lojas a senhora encontra nos seguintes lugares...( parêntesis pra se entender a localização das LOJAS – imagina que eu moro quase no oeste de Minas Gerais – as LOJAS ficariam no Oiapoque, no Chuí, em São Paulo – capital – e na fronteira mais oeste de Mato Grosso...) – nesses shoppings, continuou ela, a senhora encontra uma loja”
“Olha só, eu estou numa LOJA, num shopping...você está me dizendo que eu tenho que atravessar a cidade pra encontrar alguém pra configurar meu telefone?”
“Sabe senhora, aqui nesse shopping até existem esses configuradores, mas eles ficam 1 ou 2 horas nas lojas de cada operadora e depois vão pra outra...”
“Espera, deixa ver se eu entendi: você me diz que se eu não quiser atravessar a cidade, em qualquer direção, eu tenho que sair por esse shopping aqui, procurando um configurador de telefone que eu não conheço? uma pessoa que nunca vi? como é que vou achar?  meu anjinho, eu não estou numa gincana...”
“Mas senhora, é assim mesmo...”
“Não é, não! ...ERA assim, porque de agora em diante, pelo menos comigo, a configuração vai ser feita aqui, sim, e vou sair daqui com a internet ligada...”
O que mais me surpreendeu foi a calma que mantive todo esse tempo – passo a passo não funcionou, pronto atendimento com telefone quebrado por cliente insatisfeito, configurador que tem que ser encontrado com auxílio de bússola ( ou GPS pra ser mais moderno...)
“E se nós trocássemos o aparelho? Será que funcionaria?”
“É, pode ser.. .a senhora senta ali que vou pegar outro – só no estoque lá em cima – volto já”
Sentei feliz da vida- estava tendo atendimento personalizado!
Vem o novo aparelho – troca tudo: chip, bateria... nada! retorna para o ‘meu’...nada...
“Mas eu quero tanto atender a senhora...vou tentar mais...”
Nessas alturas, a vendedora simpatiquinha, do primeiro dia, já estava debruçada ao lado da sub-gerente...queria aprender...
Aperta tecla aqui, vai pra lá, volta, várias tentativas...e aparece outra vendedora...a sub-gerente chama e me diz ‘ela entende tudo de internet – agora a gente consegue...’
E a 3ª vendedora se debruça e, segurando seu próprio celular, vai informando os atalhos e teclas e a sub-gerente fazendo tudo e...voilà, telefone configurado, internet funcionando!
Feliz da vida, olho pra sub-gerente e digo ‘tá vendo, menina, agora você já sabe configurar...quando aparecer outro cliente aflito e perdido como eu, você está pronta...’
Ela olhou pra mim e respondeu rindo:
“Quem disse que aprendi? sou disléxica...não consigo assimilar nada que leio...tudo tem que ser explicado verbalmente! se a senhora pedir pra fazer de novo, não tenho a menor noção...”
Disléxica?? Como assim? Com tanta gente no mundo fui me deparar justo com uma disléxica pra configurar meu aparelho?
Bom, a sorte dos futuros clientes é que tanto a tal vendedora  simpatiquinha viu tudo e aprendeu, como a outra que ‘entende tudo de internet’ estão por lá, senão, minha gente, quem for leigo como eu, prepare bússola ou uma mochila pra viagem, se quiser seu celular configurado...
E eu sobrevivi a tudo isso...passo a passo em falso, pronto atendimento despencado por causa de telefone quebrado por cliente insatisfeito, possibilidade de deslocamentos gigantescos ou gincana ‘encontre um configurador’ e uma sub-gerente disléxica...
Valeu ou não minha idéia de comprar um novo telefone?



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