28 de fev de 2011

OLHAR

Os olhos fixaram no rosto dela e lentamente começaram a descer pelo seu corpo. Como se ele deslizasse as mãos ou a língua, assim ela se sentiu, suas roupas se transformarem magicamente em seda e irem suavemente descendo pelo corpo, guiadas pelos olhos dele.
Ele voltou os olhos para os olhos dela – tudo se passou em fração de minuto – imperceptível aos estranhos, mas intenso, queimando entre eles – só eles.

Há mais de 20 anos repetiam, como um ritual de acasalamento. Fugaz, quase invisível, mas intenso – assim era o olhar com que incendiavam um ao outro. Sem pudor, sem culpa, uma entrega total, absoluta, visceral.
Ela abaixou as pálpebras lentamente, enquanto seus olhos azuis acariciavam o corpo dele, até os pés, voltando rapidamente ao rosto. E o ritual se perpetuava – um leve sorriso de cada um, esboçado – apenas os dois vivam e sentiam o fogo, a paixão que emanava de um para o outro.
Nada era acompanhado de um só gesto de mãos ou do corpo – apenas olhos ardentes, cobiçosos, gulosos, apaixonados, apaixonantes...
Nunca importou a distância ou local onde se encontravam. Sempre os mesmos olhares, sempre a mesma queimação interna, a mesma paixão, a intensa gula do olhar se mostrando um ao outro.
Nesses momentos, rápidos, havia uma total entrega mútua, física, percorrendo as entranhas, quase gemidas... Há mais de 20 anos e nunca o calor diminuiu, nunca a entrega foi menos intensa... Sempre total.
Desde o momento em que se viram pela primeira vez, sem se falarem, sem se conhecerem, seus olhos devoraram um ao outro. Nada disseram – apenas os olhares falaram e, como ferro em brasa, marcaram um ao outro para sempre...
Outros encontros aconteceram e o ritual teve início. A mesma chama, a mesma paixão, a mesma cobiça...
Filhos nasceram, mortes aconteceram e o olhar de brasa se mantinha aceso, deslizante, desnudante, despudorado.
Não se tocavam – apenas os olhos falavam – não precisavam se tocar – o fogo do olhar deles tocava e acariciava mais que mãos afoitas. As roupas eram arrancadas, expondo uma nudez física e emocional – e, no entanto, permaneciam vestidos. Nudez só deles, só para eles, em cumplicidade infinita...
Nesses encontros faziam amor, se entregavam, gemiam, suavam, exaustos ao final, plenos um do outro... Ele com os olhos castanhos, como veludo aquecendo-a e ela com seus olhos azuis como estrelas, iluminando todo interior dele, explosão de raios inundando suas entranhas...
Era fugaz, mas só deles esse intenso momento – perpetuado por mais de 20 anos, percebido só por eles.
Antecipada a sensação, o calor e a paixão em cada encontro. Coração disparado, corpo inundado de ansiedade e pressa por desnudar e ser desnudado. Desfrutavam da emoção antes de se encontrarem, vivendo o calor e a explosão que viriam. E sempre vinham. Cada vez, cada encontro, cada olhar.
De repente, tudo acabava – os outros se faziam presentes, com suas conversas, risos e barulhos. O momento deles havia terminado...
Mas sabiam que outros viriam, como todos que haviam vindo até ali e sabiam, também, que o ritual permaneceria, o fogo, a paixão, o desnudamento sem pudor...
Mais uma vez o momento deles passou. Mas foi vivido intensamente  e, com uma paz interior  trazida pela saciedade e certeza dessa intensidade, se misturaram aos outros, porque sabiam que no próximo encontro, o mesmo fogo, o mesmo calor, a mesma entrega aconteceriam , nesse ritual que se perpetuava por mais de 20 anos e mantinha acesa a chama do casamento deles...

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