14 de dez de 2011

A afetividade torta...by Cerridwen

(Natalia Klein)
Acho que o maior problema dos relacionamentos contemporâneos é da ordem gastronômica. Da forma como eu vejo - e talvez esteja influenciada pela fome da madrugada - as pessoas são como grandes tortas de sabores variados. Algumas a gente bate o olho e já sabe que vai gostar, às vezes só pelo cheiro. Outras vezes, a gente segue a intuição e só depois descobre que é alérgico a nozes, ou pior, que a torta em questão curte sertanejo universitário.
Mas, ao contrário do que você possa estar pensando, o problema dos relacionamentos contemporâneos não reside no fato de que somos tortas gigantes. Tortas são bonitas e gostosas, na grande maioria das vezes - exceto nas festas de aniversário em escritórios no centro da cidade. A tristeza da coisa está na constatação de que estamos vivendo uma espécie de comidaaquilorização da afetividade. Isso significa que, devido a alta oferta de tortas no mercado, ninguém consegue se focar em apenas um sabor.

O que temos hoje é uma porção de tortas sendo vorazmente garfadas e deixadas de lado, aos pedaços, disformes, tristes. Todo mundo quer um pedacinho de torta, uma fatiazinha fina do tipo "estou-de-dieta-não-quero-muito". Tem sempre alguém querendo dar uma mordiscada, uma lambidinha, uma passadinha de dedo marota. O que ninguém quer - ou tem coragem de fazer - é arriscar e levar a torta inteira para casa.

E essa é a grande lástima da nossa geração. Estamos acostumados a tirar lasquinhas de várias sobremesas e levar à balança do restaurante para pesar. É a insustentável leveza da torta mousse de chocolate e do cheesecake de framboesa. Estamos acostumados a ter muitas, muitas opções de comida. E de pessoas. Conheço gente que tem mais de 1.000 amigos no Facebook. Como se alguém fosse fisicamente capaz de ter mil amigos.

E qual é o resultado disso? Tortas garfadas e destroçadas, sem lugar cativo na geladeira de ninguém, vagando por aí, pelas noitadas, pelas festas, tristes, tortas. E, pouco a pouco, elas vão perdendo a doçura. Vão se tornando descrentes, azedas, estragadas pelo ataque dos garfos despretensiosos.

Somos tortas. Claro que somos comidas. Mas o que eu queria mesmo era experimentar a sensação de ser a preferida de alguém. Aquela que é levada dentro do pacote - o pacote completo, com todos os defeitos e qualidades, com todas as garfadas sofridas, com tudo aquilo que faz de mim a torta gigante que eu sou. Estou farta de me pedirem pedacinhos. Quero ser levada por inteiro.


http://www.adoravelpsicose.com.br/

2 comentários:

  1. Que texto delicioso, meu amigo.

    Eu adoro associações e esta não poderia ser mais perfeita. Fico eu pensando...que torta será que sou? doce ou salgada?

    Uma coisa posso falar, com certeza: já deixei muitos farelinhos pelo caminho antes de encontrar um glutãozinho que topasse me devorar inteirinha, sem oferecer pedacinho a ninguém.

    Se ele irá conseguir chegar até o fim, eu não sei dizer. O que posso fazer é me tornar o mais deliciosa e leve possível, equilibrada no sabor para que não cause repulsa e torcer para que ele nunca se canse do sabor que escolheu, afinal.

    P.S.: Ai! que Pepinno Di Capri entra assim a cantar no teu blog, sem maiores avisos e quase que a tortinha aqui desanda...deixa-me ir.

    Abraços!
    Amanda Paz

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  2. Cansar desse sabor... Que falácia!

    Você é uma torta mágica... Quem experimenta, a cada garfada, desfruta de um novo e mágico sabor!

    Este glutão aqui, tão apaixonado por gastronomia, já que não pode se deliciar com tal banquete pelo mesmo ser de valor incomensurável, fica aqui, do outro lado da telinha, devorando as páginas que fazem anúncio de tal delícia.

    Ainda mais quando tal prato é saboreado com Peppino. Fica tudo perfeito!

    Beijos, paixão de minha vida!

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