15 de jan de 2017

MADEIRA – Um conto


MADEIRA
Era Natal.


Aquele dia em que os homens no planeta comentam sobre as lições da Natividade e pensam (alguns se comprometem) que a partir deste dia serão melhores pessoas...

Aquele homem idoso há incontáveis anos, desde a ocasião da morte do irmão, barô de seu grupo cigano, havia assumido a liderança de sua gente.

Muitas dificuldades haviam sido ultrapassadas. Pacíficos, seguiam por terras desconhecidas.

Havia abrigo, união e alimento. E o trabalho garantia as provisões.

Contudo, brinquedos não seriam trocados nem compartilhados por suas crianças.

De sua vida em si mesmo, nada a reclamar. O fato de não ter casado nesta vida, lembrava-o do quanto era feliz por poder ser o “pai” entre os seus. Nada o realizava mais do que percebê-los bem e em condições de pensarem por si mesmos, mantendo a maneira e a postura dignas.

A noção do nascimento de Jesus e o respeito à sua nobre e eterna mensagem haviam florescido nos corações, através dos exemplos dos mais velhos, dos gestos dos mais jovens e na ternura cativante das crianças.



Porém, sua idade já avançada, trazia um desejo de neste dia, oferecer às crianças mais um lindo presente, que em seus corações deixasse gravada uma doce recordação.

Foi então que ao suspirar fundo e olhar para o céu, percebeu que mais à frente existia um bosque. Rapidamente ele identificou...Sorriu, lembrando-se de sua infância e agradeceu a Deus a linda oportunidade...

Animado, dirigiu-se ao grupo de “trailers” estacionados próximos ao riacho de águas límpidas e cristalinas. Chamou todas as crianças.

Sorrindo, perguntou quem queria ganhar de presente um lindo conto de Natal.


Todas as crianças se animaram e levantaram os bracinhos gritando: - “Eu!!!!”

Para lá seguiram, alegres e saltitantes.

Sentaram em roda, numa clareira da mata. E o idoso cigano começou a contar-lhes sobre a herança que a Mãe Natu-reza havia deixado para eles, para cada criancinha ali presente. E para tantas outras...

As crianças deixaram-se embalar por sua voz doce e cadenciada, ouvindo ao fundo o cantarolar das águas do riacho, recebendo os mornos raios solares que passavam por entre as árvores, sentindo a maciez da terra onde sentavam e enterravam os seus pezinhos, recebendo o frescor da brisa da manhã.

Algumas gotas de orvalho decompunham o prisma das cores nas folhas dos arbustos e das árvores.

Um perfume pairava no ar. Também em suas almas sedentas do alimento para o espírito. Atentas e harmônicas, assim ouviram o conto.

Ali, em simplicidade, celebravam a comunhão.

Nasciam e renasciam em espírito, sob os cuidados amorosos do ancião com a mensagem que foi deixada.

Sim, era Natal.

Silêncio interior, quietude da alma, festa na natureza. E os corações pulsando uníssonos, naquilo que verdadeiramente importava...

De repente, dois rapazes da tal localidade desconhecida, embora o grupo cigano estivesse na periferia da cidade, vieram reclamar a presença deles ali.

Aquele bosque era deles, para exploração comercial deles somente!

Não havia tempo nem espaço para explicações.

O jovem líder, com um olhar intoxicado, aproveitou-se do fato do ancião estar sentado. Vociferou e o esbofeteou.

Para horror das crianças, que conheciam rigor, porém desconheciam violência.

O ancião, fez um movimento sutil com a cabeça e com os olhos para a menina mais velha do grupo infantil, incitando-os a correrem, a saírem com urgência todos dali, livrarem-se do perigo...

E ali permaneceu, imóvel. Agora de pé. Aguardando o próximo golpe...

Poderia com relativa facilidade ter contido ambos os rapazotes, pois o seu corpo ainda era rijo e ele sabia se defender, sem precisar de nenhum tipo de arma.

Porém o bem-estar de sua comunidade vinha sempre em primeiro lugar.

Um cigano sempre pensava no grupo.

Isto os distinguia de um bando. Isto os diferenciava do individualismo.

A despeito das interpretações equivocadas...

Ele não suportaria que, por mais uma vez, alguma covardia fosse cometida contra os seus.

Aliviado, percebeu que as crianças já não mais estavam ali. Seus gritos pelo bosque iam aos poucos desaparecendo.

Sucederam-se então uma série de imprecações, de agressões verbais e físicas.

O infeliz rapazote, perguntava ao velho homem: - “Cigano é gente?”

O idoso apenas olhava para ele e nada falava.

Sabia muito sobre o poder das palavras para usá-las mal ou entoá-las mal.

A multiplicação do verbo (escrito ou falado) deveria ser cuidadosa.

Permaneceria então assim, mudo. Observando-os.

Esta postura serena e não submissa, irritava-os mais e mais. Dilacerava-os em suas seguidas explosões de ódio.

Então os dois rapazotes, um colérico e o outro orgulhoso de sua diferente etnia, espancaram o velho cigano até a morte.

Para que ele servisse de lição aos outros ciganos para que não se aproximarem, pois não seriam bem vindos, uma vez que não eram cristãos...

A única reação do idoso cigano antes de morrer foi olhar bem no fundo dos olhos dos rapazes.


Eles estremeceram, porém já sem conseguirem controlar seus impulsos, prosseguiram à cruel catarse.

Contudo, este olhar os acompanhou, pelo resto da vida...



A caravana com poucos homens, muitas mulheres viúvas e crianças, rapidamente dali se afastou.

Os homens deixaram o grupo familiar em segurança e rumaram o mais rapidamente possível para resolver a contenda.

Chegando lá, receberam o cruel golpe por não ter dado tempo de socorrer o velho barô.

Choraram, oraram e recolheram o seu corpo, ainda perfumado.

Saíram sem olhar para trás com suas famílias daquele local de pestilência.

Em uma pairagem tranquila, procederam ao funeral.

Repartiram o pão. Seguiram viagem.


Anos se passaram. Um dia a caravana por ali precisou caminhar, mais uma vez.

Os jovens, aquelas antigas crianças, ainda traumatizados, quiseram render um culto em homenagem ao querido barô.

Desta vez foram todos juntos, contritos, ao local de sepultamento de seu corpo. O aroma perfumado servia de guia para a trilha anteriormente percorrida.

A menina mais velha, resolveu então revelar a todos o conto de Natal que o barô os havia presenteado:


“Em algum lugar do passado havia um senhor bastante idoso, cujas tarefas para com este mundo já haviam terminado.

Apesar da consciência tranquila, as pessoas insistiam para que ele se aborrecesse com as opiniões a seu respeito.

Que de alguma maneira ele reagisse, pois quem cala, consente. Tanto insistiram, que ele prometeu que refletiria a respeito.

Fez uma prece e se recolheu. E reviu o seu passado...



Como uma madeira, ele havia sido talhado para cuidar do bem-estar, dos hábitos e da cultura de sua gente.

Era querido e respeitado por isto. Sentia-se muito honrado, por tanto.


Como uma madeira, ele havia tido tantas experiências acumuladas que o marcaram e o feriram, mas também o embelezaram, feito os nós.





Como um leque, havia soprado e levado o mal para longe de sua gente.


Como um baú, havia sido abrigo, aconchego, acolhimento, memória, respeito e silêncio.


Como fruto da natureza, havia servido de alimento e remédio aos que sofriam.
Sabia também que para cada filho do caminho cuidado, a Vida traria o pão.



Como madeira de lei, 

amou e foi correspondido.





Como ser da natureza, cresceu, floriu,

frutificou e sua essência comunicou.





Seus frutos coloriram a vida.
 A sua e ao redor.

Mesmo suas raízes em cabeleira 
puderam ser aproveitadas.


E, embora ele soubesse de toda 
a sua força e grandeza


Aprendera a deixar-se cortar no inverno, 
para renascer na primavera*1.

Recomeçou tantas vezes, 
que saberia ser jovial mais uma vez.

Ofertando o mais valioso perfume,
 o óleo bento do Espírito Liberto.


E rescenderia de diversas formas.

Inclusive perfumando o machado 
que o feriria*2...

Porque homem-madeira, 
sabia que no jogo da Vida


Não importa o que se faça, ao final, 
o rei e o peão voltarão para a mesma caixa*3.


O tempo é o melhor juiz, 
traz consigo a sábia decisão...

E apesar das imperfeições, 
a consciência tranquila sussurrava brandamente:


- Eu Sou a Paz. Não perdi tempo 
com quem não me quer ver bem.
Vivi em desapego. Servi à Luz”.





O grupo muito emocionado, compreendeu a antecipação da mensagem do sábio e estimado barô.

O conto foi a sua despedida. Uma profunda lição para quem quer viver de maneira cristã.

Eles também perderiam o seu tempo de vida. Aquele era o dia! Eles concederiam o perdão.

Rumaram imbuídos deste espírito para a cidade a fim de obterem notícias dos rapazes.

Certamente, depois de tantos anos, eles seriam bem recebidos.

Afinal, não deviam nada a ninguém. Muito pelo contrário...



Descobriram numa quitanda que os rapazes herdeiros do bosque, haviam sofrido uma tragédia pessoal que eles não poderiam pronunciar.

O mais velho, se mudara de localidade. E o mais novo, impetuoso, adoeceu gravemente e vive no hospício, perdido em seus pensamentos, rememorando em voz alta o trágico momento.

Na cidade diziam ser fruto de uma maldição cigana. Bem, era isto o que diziam...


O novo barô do grupo foi com a sua filha, a moça mais velha daquele grupo de crianças, ao manicômio.

Chegando lá, foi difícil reconhecer, porém as irmãs de caridade que cuidavam daqueles enfermos, confirmaram quem era o rapaz da triste estória.


Em andrajos, com um riso insano, assim que o pai e a filha adentraram, ele se virou, os olhou apavorado e gritou apavorado:


- Este odor! Ele está por aqui! Não, por favor, de novo, não!!!


A menina cigana se compadeceu daquele estado decrépito e o acalmou dizendo:


- O nosso amigo barô jamais teria feito mal a você, jovem precipitado! Para onde o terá levado todo este preconceito?

Agora você caminha entre os dois mundos da pior forma, de maneira insana!

Diga-nos! Você se arrepende?



- Não!



- Então, por qual motivo teme que ele por aqui esteja?


Por segundos, o homem ali envelhecido pela péssima condição na qual jogou a sua vida, pareceu voltar à memória e falou com um certo grau de lucidez:


- Aquele cigano me olhou bem no fundo dos meus olhos e se fez espelho! E então, eu me vi!

Ele devassou a minha alma! Estava nu. Eu era oco e vazio...Para sempre o odiarei por isto! Pelo que ele me fez ver!



Neste momento, aquele doce aroma do bosque inundou e inebriou o ambiente.

E este perfume o acompanharia, na tentativa de amenizar os seus conflitos psicológicos, até o momento em que decidisse se responsabilizar por seus atos e amadurecer...

Deu até mesmo a impressão de que o ambiente havia clareado e se iluminado.

E o rapaz, soluçando como um bebê, voltou ao seu estado de torpor.


Até parecia que o seu espelho da alma, naquele momento, ao recobrar parte de sua consciência e ao se aproximar de algo mais próximo do humano,

poderia ter encerrado o círculo vicioso da mente culpada e entrado no ciclo dos elementos, retomando o movimento em espiral da evolução...Porém, ainda não...




Pai e filha se entreolharam...
Compreenderam o que havia acontecido. 
Sem dúvida, no ar o aroma rescendia...


Oraram pelo rapaz em estado de inconsciência, preocupados pela sua recusa em crescer espiritualmente.

Em paz e impotentes, retornaram para a caravana que os aguardava.

Lá o atual barô fez uma cerimônia de enlevação do Espírito, focando na força de vontade de se perseverar na bondade.

Da importância do riso, do sorriso e do serviço como reflexos salutares da alma.

Sem perderem tempo, e sem permitirem que coisas menores os detivessem, seguiram a vida.

Nada a julgar, nada a lamentar, nada a ensinar.



Cada um, a seu momento...



Prosseguiram, levando a sua arte de encantar e de transformar as situações em aprendizados.

Sabiam muito bem o valor do vermelho, também das outras cores.

As diversificadas flores na água agradavam aos olhos, rescendiam olores até o espírito e enobreciam os sentidos.




Então, a doce jovem pediu ao pai um presente especial para aquele dia:


- Que o ancião barô desencarnado pudesse ser lembrado pelos membros de seu grupo de sangue e de alma a partir do nome daquela árvore tão cheirosa do bosque, que tão habilmente ele ao descrevê-la em ensinamento moral, também os presenteou energética e simbolicamente os impregnou espiritualmente.

O pai prontamente acedeu. 

Era o justo. A comunidade concordou.




Assim, a partir dali, a essência espiritual do amado barô cigano ficou marcada, registrada e identificada.

Ele, que não era e nem queria ser dono de nada, apenas cuidava e passava com a sua caravana e com as crianças que auxiliava a educar, passou a ser reconhecido em cerimônia do grupo:

Barô de Sandalwood (Sândalo).



O incenso da madeira sagrada queimou. Toda comunidade aspirou e enlevou-se espiritualmente.

Em prece, encaminhou um pedido a Jesus, uma rogativa intercessória para aquele demenciado que perdeu muito tempo de sua vida.



Misericórdia...



Independentemente da data, naqueles corações da etnia Rroma...





Era Natal.



*1 Frase encontrada em texto de Cecília Meireles.

*2 Frase atribuída a Buda.

*3 Existe um autor, porém não sei o nome.


MADEIRA – Um conto
Publicado por Marcia Cristina B. N. Varricchio 

em 13 janeiro 2017 às 18:35 em Vida Cigana


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