28 de ago de 2011

A menina e o pássaro encantado...by Dany


Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como o seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades...

Suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava.
Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão...
“– Menina, eu venho de montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que eu vi, como presente para você...”
E assim ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como fogo, penacho dourado na cabeça.
“– Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. Minhas penas ficaram como aquele sol e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes. E de novo começavam as histórias.
A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.
Mas chegava sempre uma hora de tristeza.
“– Tenho de ir”, ele dizia.
“ – Por favor, não vá. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar...” E a menina fazia um beicinho...
“ – Eu também terei saudades”, dizia o pássaro. “- Eu também vou chorar. Mas eu vou lhe contar um segredo: as plantas precisam de água, nós precisamos de ar, os peixes precisam dos rios... E o meu encanto precisa da saudade.É aquela tristeza na espera da volta, que faz com que minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E você deixará de me amar.”
Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava de tristeza à noite, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa destas noites que ela teve uma idéia malvada:
“ – Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudade. E ficarei feliz...”
Com esses pensamentos comprou uma gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Finalmente ele chegou, maravilhoso em suas novas cores, com histórias diferentes para contar.
Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz. Foi acordar de madrugada, com um gemido do pássaro...
“ – Ah! Menina... Que é que você fez?
Quebrou-se o encanto. Minhas penas ficarão feias e eu me esquecerei das histórias... Sem a saudade o amor irá embora...”
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar.Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ia ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis da penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo...
Até que não mais aguentou.
Abriu a porta da gaiola.
“ – Pode ir, pássaro. Volte quando você quiser...”
“ – Obrigado, menina. É, eu tenho de partir. É preciso partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe,na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro da gente. Sempre que você ficar com saudade eu ficarei mais bonito.
Sempre que eu ficar com saudade, você ficará mais bonita. E se enfeitará, para me esperar...”
E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava, a saudade crescia.
“ – Que bom”, ela pensava. “ – Meu pássaro está ficando encantado de novo...”
E ela ia ao guarda roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra...
“ – Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje...”
Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque em algum lugar ele deveria estar voando. De algum lugar ele haveria de voltar, Ah! Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro secreto que se ama...
E foi assim que ela, cada noite ia para cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento:
“ – Quem sabe ele voltará amanhã...”
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro...

Rubem Alves

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