28 de jan de 2012

A ÉTICA DA SUBSTITUIÇÃO


A ciência da nutrição é hoje uma das atividades que mais ganha espaço e prestígio no meio acadêmico e profissional. O papel do nutricionista é cada vez mais valorizado ao orientar nossos hábitos alimentares, ajudando-nos a priorizar os aspectos da alimentação que são realmente importantes, levando-se em consideração as características e necessidades de cada pessoa. Sabe-se que a obesidade é muitas vezes consequência de vários fatores associados, inclusive de desequilíbrios nutricionais, ou seja, excessos e carências de nutrientes e, portanto, jamais será resolvida unicamente pela simples restrição na ingestão de calorias. Mais do que não comer, esta ciência tem descoberto que o que realmente importa é comer inteligentemente, evitando, por exemplo, misturar carboidratos com proteínas e alimentando-se de forma mais espaçada ao longo do dia.


Entretanto, por mais que a ciência alimentar avance na parte teórica, a dificuldade para depois colocar em prática essas orientações nutricionais é enorme, ainda mais se ampliada pela pressão cultural. Efetivamente, muitos hábitos alimentares sabidamente nocivos para a saúde – relacionados afast food, churrascarias, rodízios de massas/pizzas, sorveterias requintadas, excessos nas sobremesas, refrigerantes nas refeições, entre outros – são estimulados pelas indústrias do setor, as quais, por meio de experientes técnicas de marketing a serviço de suas ânsias capitalistas, destroem propósitos bem intencionados de mudanças de hábitos alimentares. Em geral, a fraqueza humana cede rapidamente à satisfação de prazeres fáceis, ainda que sejam inconvenientes.

Esta mesma dialética pode ser ampliada para muitos outros prazeres humanos, como o sexual, o da diversão, o da vaidade, o do conforto, o de poder. Vejamos alguns exemplos. É cada vez mais comum descobrir patologias ligadas ao sexo desvairado, mas o homem pouco tem perseverado em sua prática responsável. A psicologia infantil tem denunciado consequências nocivas para o ensino-aprendizagem devido ao excesso de horas de TV e internet, mas muitos pais preferem deixar as crianças divertindo-se sem controle nesses veículos de comunicação. Portanto, parece que, apesar da ciência continuar avançando na descoberta da verdade sobre o homem, este não consegue progredir na mesma proporção do ponto de vista ético. Qual seriam as causas destas incoerências?

Acredito que a resposta para esta indagação esteja na ciência ética, que aponta a diferença entre a razão teórica (abstrata) e a razão prática. A primeira potencializa a inteligência para a descoberta dos princípios vitais que nascem das finalidades das ações – por exemplo, é bom ser sóbrio — enquanto que a razão prática, apoiada nesses princípios, vai julgar e decidir a conveniência das ações práticas concretas que levarão a alcançar tais fins. Seguindo com o exemplo anterior, ela verificará se, em determinada circunstância, tal pessoa deverá/poderá tomar ou não certa bebida alcoólica para se manter sóbria tendo em vista os outros e ela mesma. Esta virtude intelectual – a qualidade que facilita agir sempre desta forma – é chamada de prudência. Mas existe ainda um terceiro movimento interior na dinâmica das virtudes. Não basta uma pessoa querer ser sóbrio (intenção) e identificar os meios para sê-lo (meios práticos concretos para alcançar a virtude) se depois não é capaz de renunciar àquilo que lhe resulta atrativo, mas que dificulta a sobriedade: esta é a virtude moral da temperança.

Infelizmente, a palavra “renúncia” parece ser hoje uma palavra proibida. As pessoas têm uma impressão subjetiva, mas errada, de que, ao renunciar a alguma coisa prazerosa, algo lhes rouba sua própria liberdade. Entretanto, muitas vezes essas pessoas não percebem que todas as boas escolhas trazem como consequência uma renúncia a outras alternativas, que também eram prazerosas, mas cuja renúncia depois se percebe que valeu a pena. O segredo está em aprender a escolher aquilo que é realmente mais prazeroso e duradouro.

Sou da opinião de que, diante de um mundo hedonista/materialista, no qual reina a ética do prazer sensível como ilusão de felicidade, nunca foi tão importante valorizar a educação da temperança, tanto na infância quanto nas demais idades. O filósofo suíço Rhonheimer a define como “o aperfeiçoamento do apetite concupiscível (aquele que inclina ao prazer), fazendo com que este apetite dirija os sentidos (olhos, paladar, tato...) a valorizar o que é realmente mais prazeroso, não permitindo que o homem seja enganado por eles”. É interessante esta definição, porque a ênfase não é posta tanto na negação, na renúncia ao prazer, mas no aperfeiçoamento do apetite para o prazer material correto. Voltando a nosso exemplo inicial, a melhor maneira de evitar a obesidade e os problemas nutricionais está em aprender desde cedo a “comer inteligentemente” e a não ser enganado pelo mero bem aparente. Chamo este exercício de ética da substituição. Por isso, uma boa mãe deve aplicá-la ajudando o filho a descobrir que é muito mais prazeroso brincar com os amigos na rua/playground do que ficar brincando comodamente no computador; uma boa professora precisa orientar seus alunos a experimentar a alegria de produzir e apresentar um trabalho escolar bem feito e demonstrar que vale muito mais a pena do que ficar deitado no quarto vendo TV por horas a fio; um bom pai deve ajudar seu pimpolho a preferir ir com ele ver um pôr do sol do que ficar se escravizando na pornografia da internet.

Como vemos, a ética da substituição está muito longe da ética da repressão, da sublimação (Freud), da neurose. Pelo contrário, é a ética da afirmação! Desejo neste artigo que todos os educadores busquem os mesmos ideais de muitos bons nutricionistas atuais, de forma a orientar a razão prática de suas crianças a preferir claramente um bom “filé mignon” a montanhas insubstanciais de “algodão doce”. Tenho a certeza que essa pressão interna que gera a virtude fará com que, aos poucos, mudemos a pressão cultural.




João Malheiro, educador

João Malheiro é doutor em Educação pela UFRJ e diretor do Centro Cultural e Universitário de Botafogo -www.ccub.org.br. É autor do livro "A Alma da Escola do Século XXI", palestrante sobre o tema da educação e mantém o blog Escola de Sagres (escoladesagres.org).

E mail:malheiro.com@gmail.com



9 comentários:

  1. Poxa professor João....falou tudo...é exatamente isso!

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    1. Olá, Querida Ana Lúcia;

      Concordo com você; a ideia foi bem explanada e coerente.

      Realmente ele foi feliz em suas colocações.

      Fico contente que o post tenha lhe agradado, minha Amiga!

      Um beijo em seu coração e muita luz!

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  2. Oi,Cigano, que bom ler novamente suas postagens, estava sentindo sua falta! Um abraço!

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    1. Olá, minha Adorada;

      Nenhum momento está completo até que você cruze por minha estrada!

      Também estava sentindo muito sua falta, meu Anjo! Agora quero recuperar o tempo perdido, aproveitando-me descaradamente de seu talento para alimentar minh'alma.

      Beijos e carinho sempre, Bia Bela!

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  3. Oi Cigano,

    adoro as questões filosóficas que você propõe em seus posts. Esta está especialmente rica.

    Perfeito esse conceito da ética da substituição, não é retirar ou reprimir o prazer, mas substituí-lo por prazeres que realmente alimentam e promovem.

    Tenho a impressão que a humanidade dá saltos extremos nessas questões, vai da total repressão vivida alguma décadas atrás, para a total libertinagem atual. Em resposta às sequelas produzidas pela repressão de sentimentos, pela ditadura de valores rígidos que tanto fez sofrer há um tempo atrás, hoje se vende a ideia de felicidade como liberdade total das ações, pais deixam de educar seus filhos para evitar impor-lhes restrições que supostamente os limita serem felizes, pessoas vivem a eterna angústia do desejo de se fazerem felizes como se isso fosse uma regra, famílias se desfazem em nome da tal felicidade, relações tornam-se individualistas, busca-se infelicidade a todo instante achando que se está buscando ser feliz, sem perceber que a felicidade é mansa, entra suavemente por portas que estão diante de nós, não precisamos busca-la desenfreadamente, basta abrir os olhos exatamente onde estamos, fazendo o que fazemos e lá estará ela. Não sabendo disso o homem inventa mirabolâncias, se expõe a milhões de escolhas erradas, se debate sem resultado. Esta é uma geração de excessos, excesso de comida, de bebida, de sexo,de consumo, de individualismos...

    Esta ética da substituição propõe o meio termo, prazer sim, mas prudência e temperança junto, é tudo.

    Coisa boa ler seus posts, viu!

    Ah, gostei das músicas da trilha nova, muito.
    Vou ficar com sua página aberta até ouvir toda a sequencia de bom gosto.

    Beijos

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  4. Meu querido amigo Cigano, bom dia!

    Nada melhor do que começar o dia com um ótimo texto. Devemos realmente pensar muito bem no que oferecemos a nós mesmos e claro, aos nossos filhos. O mais prático nem sempre o melhor (arrisco a dizer quase nunca), fazer escolhas entre o certo e o que nos agrada é muito difícil, mas devemos refletir e usar somete um peso e uma medida para não reclamarmos das consequencias.
    Aproveito a oportunidade para desejar a você e sua turma um ano maravilhoso, repleto de paz, alegrias, amores e total realizações!!

    Beijos

    Lu

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  5. "Se essa rua, essa rua fosse minha..."
    Então, tudo o que o professor falou, somado ao lúdico e simples ato de brincar, que não soubemos transmitir às novas gerações.
    Triste.
    Beijo meu querido.

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  6. Parabéns pela postagem, texto brilhante.
    O ser humano ainda não sabe bem o que é ser livre, haja vista como é escravo da mídia.
    Gosto de usar muito a expressão bom senso, o que vem a ser semelhante à palavra usada pelo autor: ponderação.
    abraços

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  7. Querido Cigano, um belo artigo.
    Na verdade os meus pais sempre fizeram isto a que o Dr João Malheiro chama "ética de substituição".
    Sempre me disseram que comer feijão é o mesmo ou melhor que comer bife, tem as mesmas proteínas com a vantagem de não ter as gorduras. Em teoria eu aceito mas o problema é o meu paladar e o meu olfacto concordarem com isso rsrsss e eu até gosto de feijão.
    Preferir filé mignon a algodão doce isso é muito fácil. Impossível é conseguir que todas as faixas da população tenham acesso a filé mignon.
    Mas concordo inteiramente, é preciso educar as pessoas para uma alimentação correcta e saudável.
    A minha receita é que não comam de mais que já não ficam obesos, tenho a certeza que no Biafra não existe esse problema rsrsss
    Desculpe, me afastei do tema
    Beijinhos
    Moçoila

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