2 de jun de 2012

Fim da infância - Carlos Alberto Di Franco





Carlos Alberto Di Francodifranco@dialdata.com.br





A sociedade assiste, atônita, a uma surpreendente patologia comportamental: o desaparecimento da infância e a supressão forçada da inocência. O fenômeno, estimulado por certos programas da televisão aberta, é preocupante.

A infância, infelizmente, está desaparecendo como fase natural da vida humana. Já não vemos crianças entretidas em brincadeiras que faziam parte da paisagem urbana das nossas cidades. A imagem, tão própria dessa fase da vida, foi sendo substituída pela cena de meninas de 4 anos dançando com gingados "eróticos" sobre o gargalo de uma garrafa.

Desenhos animados, marca de um passado não tão distante, foram sendo substituídos pelo requebro das popozudas, guindadas à condição de ídolos e tiazinhas das crianças e adolescentes. Com o apoio das próprias mães, entusiasmadas com a perspectiva de um bom cachê, inúmeras crianças estão sendo prematuramente condenadas a uma vida "adulta" e sórdida. Privadas da infância, elas estão se comportando, vestindo, consumindo e falando como adultos. A inocência infantil está sendo impiedosamente banida pela indústria do entretenimento.

Inúmeras causas têm sido levantadas para explicar o preocupante desaparecimento da natural fronteira entre a infância e a vida adulta. É difícil acreditar que apenas diferenças sociais, níveis de renda ou quaisquer explicações socioeconômicas sejam suficientes para entender essa deformação social. Na verdade, a formação por etapas, que só se adquire na família, nos livros e nas escolas, foi substituída pelo "aprendizado" instantâneo e moralmente insensível da televisão.

Atualmente, não obstante as queixas de inúmeros telespectadores, em qualquer horário as crianças têm acesso aos piores quadros de violência e degradação.

Hoje, graças ao impacto da TV, qualquer criança sabe mais sobre sexo, violência e aberrações do que qualquer adulto de um passado não tão remoto.

Não é preciso ser psicólogo para que se possa prever as distorções afetivas, psíquicas e emocionais dessa perversa iniciação precoce. Por isso, a multiplicação de descobertas de redes de pedofilia não deve surpreender ninguém. Trata-se das conseqüências criminosas da escalada de erotização infantil promovida por certa programação da TV. O veneno contra a infância vai sendo pouco a pouco instilado em alguns programas de auditório.

Assistimos a um verdadeiro aliciamento infantil.

As campanhas de prevenção da aids e da gravidez precoce batem de frente com inúmeros quadros da grade vespertina que fazem da exaltação das fantasias eróticas uma alavanca de audiência. A iniciação sexual precoce, o abuso sexual e a prostituição infantil, que, cada vez mais, ocupam espaço no nosso noticiário, são, insisto, o resultado da cultura da promiscuidade disseminada pela irresponsabilidade da mídia eletrônica.

É triste, para não dizer trágico, ver o Brasil ser citado como oásis seguro e excitante para os turistas que querem satisfazer suas taras e fantasias sexuais com crianças e adolescentes. Reportagens denunciando redes de prostituição infantil, algumas promovidas com a cumplicidade ou até mesmo com a participação de autoridades públicas, crescem à sombra da impunidade.

Sem nenhum moralismo, creio, caro leitor, que chegou a hora de uma guinada.

Fala-se muito - e com razão - da corrupção que castiga a sociedade. Mas já não é possível ocultar a raiz do câncer que, lentamente, vai tomando conta do organismo social: a crise ética e a falta de limites do negócio do entretenimento. É preciso repensar os caminhos da TV brasileira. O telespectador não quer, por óbvio, uma TV de água benta. Quer uma programação de qualidade. Mas a qualidade não se esgota na competência 
técnica. Exige também responsabilidade social.

A televisão brasileira precisa receber um choque de responsabilidade.

2 comentários:

  1. Olá meu Querido Amigo Cigano!

    Interessante matéria, parabéns!
    Há um grande exagero no meio de comunicação,
    a liberdade fugiu dos limites, tudo se vê,
    os horários não são mais respeitados!
    Sinto saudade da minha infância em que eu ouvia:
    "Eu te Amo" do Roberto Carlos!

    O sucesso do momento é a dancinha da garrafa,
    criança imitando...as popozudas rebolando...
    criança deixando de ser criança para ser vulgar!

    E sem falar na prostituição infantil algo deplorável, nosso pais é o refúgio dos turistas fazerem as sacanagens!

    Realmente não sei aonde vai parar!
    "Criança tem que ser criança"!

    Beijos e abraços

    Dany

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    Respostas
    1. Olá, minha linda e doce Dany;

      Hoje, nada mais segue padrões morais e se tornou excessivo até mesmo para quem não é nem um pouco moralista, como eu.

      Sempre acreditei na liberdade de expressão e nas manifestações sem amarras, mas também sempre imaginei tais atos seguidos do respeito ao próximo e, principalmente, da responsabilidade proveniente do bom-senso... Mas isso não existe mais...

      O desrespeito é patente, desde a bolinação do casal de namorados, seja hétero, seja homo, no meio da praça pública até as expressões mais vis e nauseantes vindas de seres abjetos como Faustão, Ratinho, cantores sertanejos.. Todos achando cômico e normal, proferir palavrões e xingamentos, entre uma e outra história degradante e inventada por cada um deles.

      E com isso, torna-se muito difícil mostrar para uma criança que aquilo não está certo, pois o banal se torna aceitável.

      Quanto à prostituição, conforme vimos em dados anteriores, no post sobre as punições aos acusados de pedofilia e estupro, qual é o ser com desvio de conduta que não gostaria de se erradicar em um país como este? Onde os vitimados são considerados culpados apenas para isentar o Estado de suas responsabilidades sociais e humanas e os criminosos saem ilesos?

      No fim, apenas estamos aprendendo que sim, o crime compensa; sim, a imoralidade é a bola da vez e sim, somos todos um grande bando de safados, molengas e sem o mínimo de amor-próprio ou amor ao próximo, pois se tudo isto está acontecendo é porque simplesmente, não fizemos nada para evitar...

      Um beijo em seu coração, minha Menina "fogosa"!!!

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